Em todas os jeitos de arte nos deparamos com releituras, afinal, a mesma história pode ser contada de formas diversas, e esse “recontar” merece atenção, respeito e, muitas vezes, um novo olhar para o objeto-arte também por parte do espectador, do leitor.
Na obra “Entre as Águas do Iguaçu: o Amor Proibido de Naipi”, da escritora Karoline Moraes, a reconhecida lenda indígena “Naipi e Tarobá” nos é apresentada com numerosos elementos novos, sobretudo na narrativa, e sem perder em nenhum momento a fidelidade e a essência da história original.
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A narrativa com o predomínio de momentos longos, com os quais a narradora discorre sem pressa, ainda assim em boa medida, tende a reter o leitor, que encontra logo no começo da obra uma fluidez, um ritmo que esse estilo carregado de orações subordinadas mais extensas costuma trazer, além da coesão que não nos deixa perder o fio da meada.
Observação muito interessante é termos a lenda contada em primeira pessoa, através da narradora-personagem, o que não é comum no gênero lenda. Temos então a história de Naipi, seus anseios, seus indagações e seu amor por Tarobá narrados por ela mesma, o que nos traz um ponto de vista talvez inédito dessa lenda indígena, destacando assim um considerável anseio feminino em romper dogmas e paradigmas em nome de valores mais intensos para a personagem, tais como a liberdade, o amor e os desejos humanos.
A riqueza lexical com um vocabulário relacionado a elementos da natureza ( fauna, flora, clima, fenômenos naturais), assim como a objetos rústicos e artefatos específicos mostra a pesquisa da autora e favorece ao leitor uma ambientação envolvente, contribuindo para provocar sensações através de figuras de linguagem, sobretudo através da sinestesia, que predomina nos fazendo sentir com as palavras os elementos que aguçam os sentidos: sons, texturas, cores, aromas, paladares e movimentos.
Na obra, o humano se confunde com a própria natureza, sendo parte viva desta, com personagens ora selvagens ora suaves, assim como a natureza que habitam e onde tudo realiza-se.
A autora não nos permite ser indiferentes ao misturar características do Romantismo e do Naturalismo nu e cru em sua escrita. E um segmento que vale ser citado como exemplo dessa inquietação é a proximidade entre um episódio onde temos um ritual de canibalismo, uma carnificina cruel, asquerosa e dolorosa tão próximo a um episódio erótico, sensual, excitante entre Naipi e Tarobá. Tal proximidade provoca os sentidos e as emoções devido à narrativa carregada de detalhes e de sinestesia.
Outros elementos como a espiritualidade e as crenças indígenas, os costumes locais, os rituais, a política e a cultura da tribo também são ricamente expostos na obra.
Quanto aos diálogos podemos observar que são “enxutos”, ainda assim suficientes e exatos para recebermos das falas das personagens o que pensam e o que sentem.
Do pano de fundo histórico sabemos de antemão que tudo se passa no momento da pré-colonização europeia, quando as figuras do cacique, do pajé e das tribos (no caso guarani) predominam no cenário; enquanto que geograficamente somos levados às Cataratas do Iguaçu, na atual fronteira entre o estado do Paraná, Brasil, e a Argentina.
Nos capítulos finais e no desfecho, a autora sobe o tom, capricha e nos transporta às águas agitadas da leitura, numa narrativa extremamente tensa, impactante e aterradora, sendo fiel ao desfecho da lenda original; ainda assim, ainda assim, não nos deixa sem poesia, sem alento, sem uma certa suavidade para um respiro, trazendo a figura espiritual da mãe de Naipi e elementos de paz pós-morte. E tudo isso sempre narrado em primeira pessoa: a própria personagem central, Naipi; o que faz toda diferença nesta obra, do primeiro capítulo à última linha escrita.
Autor da resenha
Laudemir Merlini
Professor de Português e Espanhol, escritor, tradutor e revisor de textos.
Com informações de PortalHortolandia



